domingo, 29 de janeiro de 2012

Raupp no MCTI: e agora?

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Sob o ponto de vista político, a indicação de Marco Raupp para o MCTI colocou o Programa Espacial Brasileiro numa posição que jamais teve ao longo de seus cinquenta anos.

Em entrevista publicada no jornal "O Globo" (veja aqui), o novo ministro foi explícito quanto à reestruturação do Programa Espacial, quando questionado sobre sua reformulação: "Definir o papel da Agência Espacial Brasileira (AEB) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) objetivamente. O Inpe age como a própria agência espacial. Tem que ter uma estrutura de governança com eficiência no uso dos recursos, sem duplicar esforços. O Inpe, em vez de ser parte do MCTI, vai ser parte da agência. O diretor do Inpe vai estar junto com os diretores da agência. Vai ser fiscalizado, auditado, pela agência espacial. Hoje, não tem vínculo nenhum. A proposta de decreto já está tramitando."

A entrevista concedida ao "O Globo" também revela o que se pode esperar de Marco Antonio Raupp no MCTI para alguns projetos do Programa Espacial Brasileiro, como o do Satélite Geoestacionário Brasileiro (SGB) [que, ao mesmo tempo que parece definido, não estaria tão definido], e a binacional Alcântara Cyclone Space.

Em breve, o blog Panorama Espacial fará uma análise sobre as expectativas quanto a gestão de Raupp.
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Expectativa em São José dos Campos - Parte III

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Há algumas semanas, publicamos algumas notas indicando a expectativa quanto a indicação do novo diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). A lista tríplice, preparada por um comitê de busca especialmente constituído, foi entregue ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em dezembro de 2011, e esperava-se que Mercadante, em seus últimos dias no MCTI, optasse por um dos nomes e formalizasse a indicação. O ministro deixou a tarefa para Raupp. Os nomes da lista tríplice não são conhecidos, embora o blog Panorama Espacial tenha ouvido alguns nomes que estariam na lista.

Especula-se que um ex-vice diretor do INPE seja um deles, juntamente com o chefe de uma importante unidade (por muitos, considerada independente) do Instituto, e um pesquisador do INPE, egenheiro formado na década de setenta pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Ainda, há rumores, vindos de duas pessoas familiarizadas com o assunto, de que um dos integrantes assumiria uma diretoria da Agência Espacial Brasileira (AEB).
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Pode um país colonizar a Lua?, artigo de José Monserrat Filho

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Pode um país colonizar a Lua?

José Monserrat Filho, Chefe da Assessoria de Cooperação Internacional da Agência Espacial Brasileira (AEB)

Acaba de revelar-se que há algo em comum entre os anos de 1865 e 2012. Em ambos, proclamou-se nos Estados Unidos (EUA) um voluntarioso plano para se estabelecer um Estado americano no satélite natural da Terra, a Lua, situada bem perto de nós, a cerca de 380 mil km.

Em 1865, o escritor francês Júlio Verne (1828-1905), aclamado como visionário e precursor da ficção científica, lançou o livro “De la Terre à la Lune” (Da Terra à Lua¹), narrando a irônica história do “Clube do Canhão”, com sede em Baltimore, Estado de Maryland, EUA. Fora criado ao longo da Guerra de Secessão (entre o Norte liberal e o Sul escravagista) por veteranos oficiais heróis da Artilharia. Mas deixemos o próprio Júlio Verne contar:

“Muitos ficaram no campo de batalha, e seus nomes constavam no livro de honra do Clube do Canhão. Dos que voltaram, quase todos traziam a marca da indiscutível bravura. Muletas, pernas de pau, braços articulados, mãos de gancho, maxilares de borracha, cabeças com pedaços de prata, narizes de platina, nada faltava à coleção. E o já citado Pitcairn [perito em estatística] também calculou que no Clube do Canhão não havia um braço para quatro pessoas e somente uma perna para cada seis.

“Mas os valentes artilheiros não se importavam com isso e ficavam orgulhosos quando o boletim da guerra destacava que o número de vítimas havia sido dez vezes maior do que a quantidade de projéteis atirados.

“Um dia, porém, triste e lamentável dia, a paz foi assinada pelos sobreviventes da guerra, as detonações foram cessando aos poucos, os morteiros se calaram, os obuses receberam uma mordaça, os canhões voltaram para os arsenais, as balas foram empilhadas, as lembranças sangrentas se apagaram, os magníficos algodoeiros começaram crescer nos campos adubados, as roupas de luto foram eliminadas juntamente com a dor da perda, e o Clube do Canhão mergulhou numa inatividade profunda. (…)

“– É desolador – suspirou uma noite o bravo Tom Hunter, enquanto suas pernas de pau queimavam na lareira.

“– E não existe nenhuma perspectiva de guerra! – disse o famoso J. T. Maston [inventor de um “extraordinário morteiro”], coçando a cabeça com mão de gancho.”

Diante de tamanho descalabro, em que “pairava sobre o clube a ameaça de dissolução”, o Presidente Impey Barbicane, “um homem de 40 anos, calmo, frio, austero e de temperamento inquebrantável”, “nortista colonizador... um ianque dos pés à cabeça”, convocou as centenas de associados e disse a eles ter pesquisado se “dentro da nossa especialidade, não poderíamos realizar uma grande experiência digna do século XIX”. “E, com meus estudos, adquiri a convicção de que teremos sucesso numa operação que pode parecer impraticável a qualquer outro país... Esse projeto é digno de vocês, é digno do Clube do Canhão e terá repercussão mundial.” E anunciou: “Conquistaremos a Lua, que se juntará aos Estados que formam o nosso grande país!”

O projeto consistia em construir nada menos que um gigantesco canhão (de 68 mil ton), o maior de todos os tempos, para lançar três corajosos “viajantes” à Lua.

Não revelarei como terminou a insólita experiência, para não furtar do leitor a prazer de ler até o fim o famoso livro de Júlio Verne.

Desta alegórica e divertida ficção do século XIX, passemos, num salto de 147 anos, a uma não menos alegórica e divertida realidade do século XXI.

No final deste janeiro de 2012, Newt Gingrich, pré-candidato republicano a presidente dos EUA, em plena campanha, não só prometeu criar até 2020 uma base dos EUA na Lua, como, em especial, previu que “quando houver 13 mil americanos vivendo na Lua, eles poderão fazer uma petição para que [o assentamento] vire um Estado americano”.²

Em 1865, a hipótese de os EUA fundarem um Estado na Lua até poderia ser política e legalmente admissível, embora não houvesse a mais ínfima possibilidade tecnológica e financeira para tanto.

Já em 2012, – há mais de 40 anos, portanto, daquele inesquecível dia 19 de junho de 1969 quando os primeiros astronautas americanos pisaram na Lua – é bastante constrangedor para um homem público, sobretudo americano, ignorar o Tratado do Espaço3, de 1967, que proíbe os países de se adonarem do espaço exterior e de qualquer corpo celeste, a começar pela Lua. Esse acordo foi aprovado por unanimidade pela Assembleia Geral das Nações Unidas e já ratificado por mais de 100 países envolvidos com programas espaciais, inclusive os EUA.

Eis o texto oficial do Art. 2º do Tratado do Espaço: “O Espaço cósmico, inclusive a Lua e demais corpos celestes, não poderá ser objeto de apropriação nacional por proclamação de soberania, por uso ou ocupação, nem por qualquer outro meio.”

Diante deste princípio jurídico internacional obrigatório, como acreditar que um grupo de cidadãos de um país – por mais numeroso que seja – possa ser considerado como legalmente competente para sequer solicitar a transformação de seu assentamento lunar em Estado ou Província de seu Estado de origem?

O pré-candidato republicano Newt Gingrich parece não saber ou prefere desprezar o princípio hoje reconhecido universalmente de que o espaço cósmico e os corpos celestes (Lua, Marte e todos os outros) não podem pertencer a nenhum país e a ninguém – são o que já o Direito Latino considerava “Res communis omnium”, ou seja, coisas de uso comum, acessível a todos.

É claro que todos os países, inclusive os EUA, podem estabelecer um assentamento na Lua, segundo o Art. 1º do Tratado do Espaço, que determina: “O espaço cósmico, inclusive a Lua e demais corpos celestes, poderá ser explorado e utilizado livremente por todos os Estados sem qualquer discriminação, em condições de igualdade e em conformidade com o direito internacional, devendo haver liberdade de acesso a todas as regiões dos corpos celestes.”

Explorar (que, no caso, significa estudar, conhecer profundamente) e utilizar os recursos da Lua – as duas ações não habilitam nenhum país ou empresa a tornar-se dono, proprietário, soberano da área do assentamento lunar. Tanto que o já mencionado Art. 2º, logo a seguir, consagrou o princípio da não-apropriação.

Em se tratando de regulamentar as atividades dos Estados na Lua, há que considerar, além do Tratado do Espaço, o Acordo da Lua4, aprovado por aclamação pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1979, inclusive com o voto favorável dos EUA, mas que conta hoje com apenas três assinaturas e 13 ratificações. Os países com mais destaque nas atividades espaciais não ratificaram esse acordo, entre eles os EUA. Mesmo assim, sua longa discussão (cerca de 10 anos) e parcial adoção representam uma experiência muito rica que não pode ser deixada de lado no momento em que se retomarem as negociações para a ampla regulamentação específica ainda pendente sobre como os países poderão explorar, coletar e utilizar os recursos lunares – algo que talvez comece a ocorrer dentro de 20 a 30 anos.

De qualquer forma, não há a mínima indicação de que a comunidade internacional venha um dia a concordar com a eliminação do princípio da “não-apropriação” do espaço e dos corpos celestes. Isso representaria um retrocesso à época da formação dos impérios coloniais, que, felizmente, já estão no museu da história.

Daí o ridículo que soa hoje pregar a criação de uma colônia ou de um Estado na Lua.

Referências

1) Verne, Júlio, Da Terra à Lua; tradução e adaptação de Maria Alice de Sampaio Dori. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2005.
2) Folha de S. Paulo, 28 de janeiro de 2012, p. A16.
3) Tratado sobre Princípios Reguladores das Atividades dos Estados na Exploração e Uso do Espaço Cósmico, inclusive a Lua e demais Corpos Celestes, aberto à assinatura em 27 de janeiro de 1967, em vigor desde 10 de outubro do mesmo ano; e ratificado pelo Brasil em 5 de março de 1969.
4) Acordo que Regula as Atividades dos Estados na Lua e em Outros Corpos Celestes, aberto à assinatura em 18 de dezembro de 1979, em vigor desde 11 de julho de 1984; não assinado, nem ratificado pelo Brasil.
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sábado, 28 de janeiro de 2012

Alunos do ITA nos EUA

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ALUNOS DE GRADUAÇÃO DA ENGENHARIA AEROESPACIAL DO ITA INICIAM PROJETO DE FOGUETE DIDÁTICO DURANTE ESTÁGIO NA UNIVERSIDADE DE PURDUE

27/01/12

Com o apoio do Instituto Nacional de Estudos do Espaço (INEspaço) e do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), seis alunos de graduação da Engenharia Aeroespacial realizaram estágio em motores a propulsão líquida na Universidade de Purdue, West Lafayette - EUA, em janeiro deste ano.

Acompanhados pelo Prof Dr Amilcar Pimenta e pelo Tenente-Coronel Aviador André Pierre Mattei, ambos da Divisão de Engenharia Aeronáutica do ITA, os alunos da Engenharia Aeroespacial se juntaram aos alunos regulares da Universidade de Purdue no curso de Projeto, Construção e Teste de Motores. Durante o período nos EUA, os alunos trabalharam no estabelecimento de objetivos e definição de requisitos, no plano de desenvolvimento de um motor, em experimentos práticos no Laboratório Zucrow, dedicado aos estudos de propulsão líquida da Universidade.

Para servir de base ao desenvolvimento dos trabalhos, os alunos escolheram desenvolver um foguete didático com propelentes líquidos. Além desta opção, havia também a possibilidade de um motor a oxigênio líquido e metano e um motor a propelentes hipergólicos não tóxicos. Este foguete, serve como exemplo de desenvolvimento desde o estabelecimento de objetivos e requisitos de projeto até a sua fase final, passando pela definição de missão, tamanho, propelentes e condições de operação.

Após o retorno ao Brasil, com o apoio das disciplinas de Engenharia de Sistemas e de Propulsão Líquida do ITA, os alunos continuarão a trabalhar nas fases de desenvolvimento de projeto, análise detalhada ao desenho e projeto de testes e análise de dados. “A iniciativa visa capacitar recursos humanos em alto nível para manter o Comando da Aeronáutica e o Departamento de Ciências e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) na liderança do domínio das tecnologias necessárias ao Programa Espacial Brasileiro”, diz o coordenador do curso Ten Cel Pierre Mattei.

Os alunos do ITA continuarão a trabalhar com os alunos da Universidade de Purdue até o fim do primeiro semestre de 2012, havendo a possibilidade de continuidade no segundo semestre.

Fonte: ITA
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

SGB: Entrevista com o general Celso José Tiago, do MinDef

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Reproduzimos abaixo entrevista publicada junto a reportagem sobre o Satélite Geoestacionário Brasileiro (SGB) e o Sistema de Comunicações Militares por Satélite, do Ministério da Defesa ("Reportagem sobre o SISCOMIS e o SGB"), da edição n.º 127 da revista Tecnologia & Defesa:

Entrevista com o general-de-divisão Celso José Tiago, responsável pelo programa SGB no Ministério da Defesa

Como o projeto do SGB se insere dentro da Estratégia Nacional de Defesa?

A Estratégia Nacional de Defesa determina que as Forças Armadas realizem o monitoramento das fronteiras terrestres e marítimas o que pressupõe o estabelecimento de diferentes sensores ao longo dessas fronteiras, os quais necessitarão enviar seus produtos para um centro de análise e decisão. Para a remessa desses produtos, serão necessárias vias de comunicações alternativas, onde se insere o satélite geoestacionário de comunicações como uma das mais importantes.

O senhor poderia falar um pouco sobre a importância e a expectativa com a participação de indústrias nacionais no projeto?

O Brasil, ainda segundo o que estabelece a Estratégia Nacional de Defesa, doravante terá que investir mais no setor espacial. Penso que teremos, em médio prazo, dois a três satélites geoestacionários de comunicações estatais, devendo o primeiro ser lançado em 2014 para operar em banda Ka e X. Serão necessários ainda satélites de navegação, de vigilância, meteorológicos, entre outros.

O ideal é que essa demanda venha a ser atendida, de uma maneira crescente, pela indústria nacional. Para o primeiro satélite a ser lançado em 2014, a Telebras se juntou à Embraer Defesa e Segurança e criaram uma nova empresa que fará a aquisição do satélite. Após o lançamento e testes em órbita, o satélite será de propriedade da Telebras, que irá operá-lo, não só no posicionamento orbital, como nas comunicações em banda Ka. A banda X será totalmente operada pelo Ministério da Defesa.

Imagina-se que essa empresa, recentemente criada pela Telebras e Embraer Defesa e Segurança, adquira, paulatinamente, know how no setor espacial e venha, no futuro, a competir nesse mercado, priorizando a indústria nacional.

Nos últimos anos, o governo brasileiro firmou parcerias estratégicas com alguns países, dentre os quais França e Itália, que abrangem cooperação em defesa, inclusive comunicações militares via satélite. Como esses países podem contribuir para o SGB?

Sabe-se que dificilmente um país passa tecnologia estratégica para outro. No entanto, o Brasil já possui uma razoável capacidade tecnológica na área espacial, principalmente no Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) e no Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA). Esse patamar tecnológico aliado a uma robusta e regular injeção de recursos governamentais na contratação de pessoal mediante concurso, em pesquisas e nas parcerias com países possuidores dessa expertise, não há dúvida, colocará o Brasil no caminho certo para conquistar a tão desejada autonomia tecnológica no setor espacial.

Fonte: revista Tecnologia & Defesa n.º 127.
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Reportagem sobre o SISCOMIS e SGB

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Elemento estratégico - Comunicações por satélite

Um panorama do SISCOMIS e as perspectivas do SGB

André M. Mileski

Desde o início da década de 2000 que, dentro do governo, se fala sobre o Satélite Geoestacionário Brasileiro, também conhecido como Sistema Geoestacionário Brasileiro, ou simplesmente pela sigla SGB. Em 2003, na edição n.º 103 de Tecnologia & Defesa, foi publicada uma reportagem até então exclusiva, intitulada “Um Passo Fundamental - O Satélite Geoestacionário Brasileiro”, que indicava os planos e objetivos para dispor de um satélite de órbita geoestacionária que atendesse algumas necessidades do País.

Passados quase dez anos, o governo parece, finalmente, ter tomado a decisão de seguir adiante com o projeto. O SGB de hoje, no entanto, focado em comunicações, é bem diferente daquele desenhado anteriormente, que pretendia dotar o Brasil de um sistema de controle de tráfego aéreo envolvendo satélites, atendendo compromissos assumidos perante a Organização de Aviação Civil Internacional (OACI) e, secundariamente, prover comunicações estratégicas e também imageamento para fins meteorológicos.

A viabilização

Com o ressurgimento da estatal Telebras, de telecomunicações, em meados de 2010, especulava-se sobre a possibilidade de seu envolvimento no SGB, o que acabou se materializando.

No final de agosto passado, o Governo Federal divulgou o Plano Plurianual (PPA) 2012/2015 que, grosso modo, estabelece os principais projetos e programas para um período de quatro anos, no caso, de 2012 a 2015. E um dos que lá figuram é o do “lançamento de satélite para comunicações” pela Telebras, com custo total estimado de R$ 716 milhões, iniciando-se em 1º de janeiro de 2012 e se encerrando em 31 de dezembro de 2015. No orçamento de 2012, constam investimentos de R$ 55,7 milhões, com a expectativa de que um contrato para o primeiro satélite seja assinado neste mesmo ano.

O satélite será destinado prioritariamente para atender o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), sob a responsabilidade da Telebras, e também as necessidades em comunicações das Forças Armadas, atendidas pelo Sistema de Comunicações Militares por Satélite (SISCOMIS).

O objetivo é que o primeiro SGB seja lançado em 2014, com um segundo satélite, com recursos ainda a serem obtidos, sendo colocado em órbita em 2019. Muito embora ainda não tenha ocorrido a contratação do sistema, as informações recebidas por Tecnologia & Defesa indicam que o satélite terá grande porte – de 5 a 6 toneladas, contando com transpônderes em banda X, para uso exclusivo militar, e Ka, focada no atendimento do PNBL, mas que também poderá ser usada para a comunicação com veículos aéreos não tripulados.

Em evento sobre satélites realizado no início de outubro último, o general-de-divisão Celso José Tiago (ver entrevista [nota do blog: a entrevista será reproduzida no blog ainda essa semana]), responsável pelo SGB no Ministério da Defesa, destacou a intenção de que o SGB ocupe uma posição orbital que lhe permita cobrir o Atlântico, o continente africano e o Mediterrâneo, regiões de interesse estratégico para o País.

Movimentações empresariais

Definida a modelagem do programa SGB e a sua viabilização por meio da Telebras, o governo, num processo coordenado por vários ministérios liderados pelos das Comunicações e da Defesa, e em linha com a Estratégia Nacional de Defesa, buscou inserir a indústria nacional no projeto, o que se deu de forma bastante célere.

No início de novembro de 2011, a Embraer e a Telebras assinaram um memorando de entendimentos visando a constituição de sociedade, na qual a Embraer terá participação de 51%, e a Telebras de 49%, para atuar no plano de desenvolvimento satelital para o Brasil, incluindo o PNBL e comunicações estratégicas de defesa e governamentais. A joint-venture, cuja montagem estava em fase de negociações finais até o fechamento desta edição, vai contratar, integrar e operar o sistema em benefício dos usuários finais.

De acordo com Luiz Carlos Aguiar, presidente da Embraer Defesa e Segurança, o SGB deverá contar com significativo envolvimento da Atech Negócios em Tecnologias S/A, empresa da qual a Embraer adquiriu 50% de participação em abril de 2011, em razão de sua grande expertise em integração de sistemas. A Atech esteve envolvida no programa do Sistema de Vigilância e Proteção da Amazônia (SIVAM/SIPAM), e também foi contratada, em 2010, para a elaboração do projeto básico do Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON), do Exército Brasileiro. No final, o objetivo é que todos os sistemas brasileiros, como o de controle de tráfego e defesa aérea, de monitoramento de fronteiras e de comunicações via satélite estejam operando integrados.

Em paralelo a isso, os fabricantes de satélites também se movimentam, e dois despontam como favoritos, ao menos nas informações que circulam nos bastidores: a Astrium, do grupo europeu EADS, e a franco-italiana Thales Alenia Space, não se descartando a possibilidade de uma proposta conjunta. A França e a Itália, aliás, firmaram acordos de cooperação estratégica com o Brasil que incluem possíveis iniciativas em comunicações militares por satélite, facilitando as negociações e acordos comerciais.

Oportunidades também surgirão em outros segmentos além do espacial, como o terrestre, com o fornecimento de estações de recepção e transmissão de dados, lançamento e colocação do satélite em órbita final, por exemplo. Nesta área em específico, a Telespazio Brasil, controlada pela Finmeccanica e Thales, já demonstrou seu interesse em participar do projeto, inclusive dentro de uma lógica de transferência de competências.

Muito embora esteja prevista a participação nacional, liderada pela Embraer Defesa e Segurança, no projeto do SGB, fato é que isso se dará mais na de aquisição e integração do sistema e não na fabricação do satélite propriamente dita. No entanto, a possibilidade de que a indústria brasileira esteja presente, no futuro, da construção de subsistemas e componentes para novos satélites não é descartada. A atuação da Agência Espacial Brasileira (AEB) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) nos comitês de trabalho criados pelos ministérios das Comunicações e da Defesa é uma sinalização dessa intenção.

SISCOMIS

O SGB, quando em órbita, também se integrará ao Sistema de Comunicações Militares por Satélite (SISCOMIS), do Ministério da Defesa. A origem das telecomunicações militares no Brasil, por sinal, data de 1985, a partir de um trabalho interministerial elaborado pelo antigo Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), que implantou o SISCOMIS. Buscava-se dotar o País da capacidade de operar, desde o tempo de paz, uma rede de comunicações exclusivas e confiáveis do Alto-Comando das Forças Armadas às mais altas autoridades civis do Governo Federal e a Presidência da República.

Para tanto, foi criada em 9 de dezembro de 1991 a Comissão de Desenvolvimento do Projeto e da Implantação do Sistema de Comunicações Militares por Satélite (CISCOMIS), com atribuições para coordenação dos trabalhos relativos, incluindo a implantação, avaliação e acompanhamento do sistema.

Os estudos realizados pela comissão culminaram com a aprovação de um projeto que levou em consideração, predominantemente, a interligação entre as autoridades e os aspectos estratégicos do início a década de 1990, baseados na importância geopolítica do Cone Sul. Sob este contexto, foram criadas três estações terrenas, a de Brasília (DF), de Curitiba (PR) e no Rio de Janeiro (RJ). A partir de 2000, houve um processo de expansão, com destaque à região amazônica, sendo criadas outras cinco estações: Manaus (AM), Campo Grande (MS), Belém (PA), Porto Alegre (RS) e Natal (RN). As estações terrestres estão interligadas por meio de fibras ópticas ou enlaces rádio, dependendo das características do terreno.

O segmento espacial é composto por dois transponders de banda X, de uso exclusivo das Forças Armadas, a bordo dos satélites Star One C1 e C2, operados pela Star One, subsidiária da Embratel. Também um canal em banda Ku é alugado da Star One, do satélite Star One C1, complementando toda a rede pela qual trafegam sinais de voz, fax, dados e vídeo (videoconferência). Pela banda X operam as Estações Tático-Transportáveis (ETT), comumente utilizadas em manobras e exercícios das Forças Armadas brasileiras.

Em 2011, o SISCOMIS recebeu e colocou em uso mais dois terminais transportáveis e outros cinco terminais transportáveis leves. Até o momento, foram recebidos, em fábrica, mais 29 terminais transportáveis, que serão colocados em uso em março de 2012. Assim, o SISCOMIS contará com 88 terminais, que atenderão satisfatoriamente às principais demandas das instituições militares. O sistema possui uma área de abrangência que cobre toda a América do Sul, o Caribe, a Antártida e proximidades da costa da África. Anualmente, conta com um orçamento em torno de R$ 18,5 milhões, utilizado para a sua operação e eventual complementação.

O SISCOMIS passou por um crescimento considerável nos últimos anos, não apenas localmente, mas também no exterior. Três terminais transportáveis são operados pela missão brasileira no Haiti, provendo comunicações com o Brasil. No terremoto que assolou aquele país em janeiro de 2010, o SISCOMIS demonstrou a sua importância, pois os primeiros contatos entre o comando, em Brasília, e a missão brasileira foram providos pela rede.

O aumento do emprego, que tem exigido do Ministério da Defesa a constante atualização e complementação do segmento terrestre, aliado às expectativas de crescimento e evolução com a chegada do SGB, tem aberto boas oportunidades comerciais. No final de novembro passado, a empresa brasileira Arycom promoveu, na capital federal, um seminário sobre novas soluções em comunicações militares por satélite, ocasião em que, dentre outras, apresentou o terminal portátil Panther Manpack, da estadunidense L-3 Communications, destinado para uso exclusivo militar, capaz de operar nas bandas Ku, Ka ou X, atingindo velocidades de transmissão superiores a 2Mbps.

Fonte: Tecnologia & Defesa n.º 127, dezembro de 2011.
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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Novo presidente da AEB

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Agência Espacial Brasileira deve ser presidida por matemático

José Raimundo Braga Coelho é diretor do Parque Tecnológico de São José dos Campos

24/01/2012 - 13h00 O Globo

BRASÍLIA - O matemático José Raimundo Braga Coelho deve ser o novo presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), em substitutição ao colega Marco Antonio Raupp, que assume nesta terça-feira o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Atualmente, Braga é diretor do Parque Tecnológico de São José dos Campos, dirigido até 2010 por Raupp, antes de entrar no governo. O anúncio deve ser formalizado nos próximos dias, porém, ainda faltam ajustes políticos para a presidente Dilma Rousseff bater o martelo.

A indicação de Braga já é comemorada por um círculo restrito de cientistas ligados ao Programa Espacial. O diretor do Parque Tecnológico já trabalhou na AEB, além de ter sido professor de matemática da Universidade de Brasília (UnB) e do Departamento de Ciências da Computação da Universidade de Nova York (EUA). No Brasil, o técnico gerenciou o mais audacioso programa de satélites já executado no país, pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE): o Cbers, firmado em parceria com a China e que já lançou satélites de monitoramento com sucesso.

Na AEB, atuou como assessor da Presidência e, hoje, é tesoureiro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Para amigos próximos, José Raimundo Braga Coelho já afirmou que, em caso de confirmação do convite, ele assumirá a função. De acordo com técnicos do MCT, a formalização do anúncio deve ocorrer até o final desta semana.

Fonte: website do jornal O Globo
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