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INPE e UFRN desenvolvem novo circuito para nanossatélites
Sexta-feira, 13 de Novembro de 2015
Um receptor para uso em transponder de nanossatélites está em único circuito desenvolvido em parceria pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no seu Centro Regional do Nordeste (CRN), e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
“A vantagem do projeto está na redução no tamanho e no consumo de energia e, também, no aumento da confiabilidade do transponder, uma vez que todo o receptor é fabricado em um único circuito integrado (CI) utilizando a mesma tecnologia”, explica Manoel Jozeane Mafra de Carvalho, chefe CRN/INPE, em Natal (RN).
O transponder DCS deve ser usado nos nanossatélites CONASAT, em desenvolvimento pelo CRN/INPE para atender o Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais (SBCDA).
O receptor possui um amplificador de baixo ruído (LNA), misturadores e um sintetizador de frequências, fabricado em tecnologia CMOS 130 nm. Devido ao alto ganho e baixo ruído oferecidos pelo LNA, o receptor é compatível não apenas com o SBCDA, mas também com o padrão Nouvelle Génération (NG) do sistema franco-americano ARGOS-3.
“Foram fabricadas 25 amostras do circuito integrado (CI) contendo o receptor, das quais 10 foram encapsuladas para a etapa de testes que será iniciada em breve. Esta etapa visa catalogar as especificações do CI em relatório para posterior uso pelo INPE. Vale salientar que, apesar de ser um protótipo inicial, este trabalho representa um passo significativo na caminhada em direção à modernização dos satélites do SBCDA. Além disso, este projeto contribuiu com oportunidades à formação de projetistas de circuitos integrados no país”, destaca o chefe do CRN/INPE.
Esta foi a primeira parceria entre o INPE e a UFRN na área de Microeletrônica com a produção de um circuito integrado. O projeto conta ainda com o Laboratoire d'Informatique de Paris 6 (LIP6) da Université Pierre et Marie Curie (UPMC), da França. A contrapartida brasileira do projeto foi desenvolvida no Laboratório de Instrumentação e Microeletrônica (LIME) e Laboratório de Microeletrônica e Sistemas Embarcados (uEES), da UFRN.
Fonte: INPE
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segunda-feira, 16 de novembro de 2015
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
CONASAT: continuidade ao SBCDA
Em setembro, na edição nº 138 de Tecnologia & Defesa, abordamos o projeto do Sistema de Coleta de Dados Hidrometeorológicos (SCD-HIDRO), lançado pela Agência Espacial Brasileira (AEB) em conjunto com a Agência Nacional de Águas (ANA), tendo como um de seus objetivos assegurar a continuidade do Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais (SBCDA) (veja "SCD-Hidro: Um alento à indústria espacial brasileira").
De fato, o SCD-HIDRO não é a única iniciativa brasileira em desenvolvimento visando suprir o SBCDA. Em Natal (RN), no Centro Regional do Nordeste, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CRN/INPE), há alguns anos uma equipe de engenheiros e pesquisadores desenvolve o projeto CONASAT, uma missão espacial baseada no conceito “acesso rápido e barato ao espaço”, tendo por referência o padrão cubesat, tecnologia que tem "popularizado" a tecnologia espacial em todo o mundo. [Nota do blog: recomendamos a leitura do artigo "Cube e nano satélites - Um novo conceito para o setor espacial", de Otavio Durão, publicada em T&D n.º 136. março de 2014]
Acrônimo de COnstelação de NAno SATélites, o CONASAT "objetiva oferecer uma opção tecnologicamente atualizada e a custos reduzidos para garantir a continuidade do SBCDA, através de uma constelação de nano satélites, que possibilitem melhorias na qualidade do serviço, no que diz respeito à capacidade, abrangência geográfica e tempos de revisita", sintetizou ao blog Panorama Espacial Manoel Carvalho, chefe do CRN/INPE e responsável pela missão.
Seu desenvolvimento ocorre de maneira gradativa, com desafios tecnológicos previstos para cada passo. "Apesar do projeto ser de uma constelação completa e todos os estudos terem sido feitos neste sentido, decidiu-se pela criação de versões de desenvolvimento gradativo, em que cada uma servirá de laboratório para avaliação de desempenho, de modo a nortear o desenvolvimento da próxima versão", detalha Carvalho.
Dentro desse processo gradual, o primeiro satélite da constelação, denominado CONASAT-0, numa estrutura 3U, servirá como prova de conceito e terá como principal missão embarcar a carga útil, um transpônder com massa inferior a 350 gramas em desenvolvimento pelo CRN, para validação de sua operação. A partir do CONASAT-1 (ilustração acima), o projeto assumirá um caráter operacional, quando utilizará uma estrutura tamanho 8U, com forma de cubo, peso máximo em torno de 8 quilos e dimensões de 20 centímetros, permitindo a redundância da carga útil e assim aumento de sua confiabilidade.
A versão seguinte, CONASAT-2, introduzirá o processamento a bordo dos sinais recebidos pela carga útil, visando otimizar a recuperação das mensagens transmitidas pelas estações de coleta de dados em solo. A CONASAT-3, por sua vez, permitirá a utilização de antenas multifocal, aumentando a capacidade de separação e a qualidade dos sinais recebidos simultaneamente das Plataformas de Coleta de Dados (PCD). Nesta versão, também será ampliada a faixa de entrada para acomodar novas aplicações compatíveis com o ARGOS-3, rede franco-americana com propósitos similares ao do SBCDA. Na versão CONASAT-4 serão introduzidos o links intersatélites com o objetivo de expandir a abrangência geográfica do sistema SBCDA, abrindo a possibilidade de acordos de cooperação com outros países.
Momento atual
Atualmente, a missão se encontra em fase de definição detalhada do projeto, com sua revisão crítica prevista para maio do ano que vem, momento a partir do qual poderão ser produzidos e qualificados os equipamentos e subsistemas do cubesat. A etapa seguinte será a revisão de qualificação, prevista para o final de 2015, e a revisão de aceitação no inicio de 2016. Desta forma, a expectativa é que o CONASAT-0 esteja disponível para lançamento no primeiro semestre de 2016, em lançador ainda não definido.
Em paralelo ao CONASAT-0, já acontecem algumas ações visando a uma constelação operacional. No final de agosto, a empresa holandesa ISIS - Innovation Solutions in Space, uma das líderes mundiais no segmento de cubesats, representada no Brasil pela Lunus Aeroespacial, firmou contrato com a FUNCATE (fundação ligada ao INPE) para o fornecimento de uma plataforma composta de uma estrutura mecânica 8U, subsistema de comunicação, computador de bordo e equipamentos de suporte por pouco menos de 200 mil euros (cerca de 600 mil reais).
Em termos de valores, aliás, estima-se que um CONASAT-1 operacional custará em torno de 2 milhões de reais, valor considerado bastante baixo. Uma constelação formada por seis modelos em órbita, contando-se o lançamento e o segmento solo, teria custo próximo ou inferior a 20 milhões de reais.
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De fato, o SCD-HIDRO não é a única iniciativa brasileira em desenvolvimento visando suprir o SBCDA. Em Natal (RN), no Centro Regional do Nordeste, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CRN/INPE), há alguns anos uma equipe de engenheiros e pesquisadores desenvolve o projeto CONASAT, uma missão espacial baseada no conceito “acesso rápido e barato ao espaço”, tendo por referência o padrão cubesat, tecnologia que tem "popularizado" a tecnologia espacial em todo o mundo. [Nota do blog: recomendamos a leitura do artigo "Cube e nano satélites - Um novo conceito para o setor espacial", de Otavio Durão, publicada em T&D n.º 136. março de 2014]
Seu desenvolvimento ocorre de maneira gradativa, com desafios tecnológicos previstos para cada passo. "Apesar do projeto ser de uma constelação completa e todos os estudos terem sido feitos neste sentido, decidiu-se pela criação de versões de desenvolvimento gradativo, em que cada uma servirá de laboratório para avaliação de desempenho, de modo a nortear o desenvolvimento da próxima versão", detalha Carvalho.
Dentro desse processo gradual, o primeiro satélite da constelação, denominado CONASAT-0, numa estrutura 3U, servirá como prova de conceito e terá como principal missão embarcar a carga útil, um transpônder com massa inferior a 350 gramas em desenvolvimento pelo CRN, para validação de sua operação. A partir do CONASAT-1 (ilustração acima), o projeto assumirá um caráter operacional, quando utilizará uma estrutura tamanho 8U, com forma de cubo, peso máximo em torno de 8 quilos e dimensões de 20 centímetros, permitindo a redundância da carga útil e assim aumento de sua confiabilidade.
A versão seguinte, CONASAT-2, introduzirá o processamento a bordo dos sinais recebidos pela carga útil, visando otimizar a recuperação das mensagens transmitidas pelas estações de coleta de dados em solo. A CONASAT-3, por sua vez, permitirá a utilização de antenas multifocal, aumentando a capacidade de separação e a qualidade dos sinais recebidos simultaneamente das Plataformas de Coleta de Dados (PCD). Nesta versão, também será ampliada a faixa de entrada para acomodar novas aplicações compatíveis com o ARGOS-3, rede franco-americana com propósitos similares ao do SBCDA. Na versão CONASAT-4 serão introduzidos o links intersatélites com o objetivo de expandir a abrangência geográfica do sistema SBCDA, abrindo a possibilidade de acordos de cooperação com outros países.
Momento atual
Atualmente, a missão se encontra em fase de definição detalhada do projeto, com sua revisão crítica prevista para maio do ano que vem, momento a partir do qual poderão ser produzidos e qualificados os equipamentos e subsistemas do cubesat. A etapa seguinte será a revisão de qualificação, prevista para o final de 2015, e a revisão de aceitação no inicio de 2016. Desta forma, a expectativa é que o CONASAT-0 esteja disponível para lançamento no primeiro semestre de 2016, em lançador ainda não definido.
Em paralelo ao CONASAT-0, já acontecem algumas ações visando a uma constelação operacional. No final de agosto, a empresa holandesa ISIS - Innovation Solutions in Space, uma das líderes mundiais no segmento de cubesats, representada no Brasil pela Lunus Aeroespacial, firmou contrato com a FUNCATE (fundação ligada ao INPE) para o fornecimento de uma plataforma composta de uma estrutura mecânica 8U, subsistema de comunicação, computador de bordo e equipamentos de suporte por pouco menos de 200 mil euros (cerca de 600 mil reais).
Em termos de valores, aliás, estima-se que um CONASAT-1 operacional custará em torno de 2 milhões de reais, valor considerado bastante baixo. Uma constelação formada por seis modelos em órbita, contando-se o lançamento e o segmento solo, teria custo próximo ou inferior a 20 milhões de reais.
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domingo, 28 de setembro de 2014
"SCD-Hidro: Um alento à indústria espacial brasileira"
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.SCD-Hidro: Um alento à indústria espacial brasileira
André M. Mileski
Apesar de alguns importantes acontecimentos nos últimos anos, como a edição de um novo Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE 2012-2021), o surgimento da figura de uma prime contractor e a contratação do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC), não se pode dizer que a indústria espacial brasileira vive um momento de exuberância. Pelo contrário. Formada por um pequeno número de pequenas e médias empresas, o setor industrial nacional está em crise, decorrente, principalmente, da falta de encomendas de seu principal (e único) cliente, o que tem gerado, inclusive, demissões.
A Agência Espacial Brasileira (AEB), a quem em tese compete exercer ações de política industrial previstas na PNAE, reconhece a situação. “Realmente, esse momento é o momento em que estamos concluindo vários projetos e precisamos retomar outras iniciativas”, afirmou José Raimundo Coelho, presidente da Agência, em entrevista dada à T&D no final de 2013.
É com base neste cenário, e enquanto outras missões do PNAE e do Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE) não se materializam, que se busca viabilizar o projeto do Sistema de Coleta de Dados Hidrometeorológicos (SCD-Hidro), lançado pela AEB em conjunto com a Agência Nacional de Águas (ANA), vinculada ao Ministério do Meio Ambiente.
Histórico
Muito embora tenha um forte componente de política industrial, o SCD-Hidro não está sendo desenvolvido pura e simplesmente para gerar carga de trabalho para as indústrias brasileiras. A participação da ANA decorre do fato desta ser a principal usuária do Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais (SBCDA) (ver box), mantido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), do qual depende para seus monitoramentos do volume de água e do balanço hidrológico dos reservatórios. Desta forma, o projeto atende a uma demanda do governo, além de funcionar como uma ação de política industrial, num campo tecnológico já plenamente dominado pela indústria espacial nacional.
Oficialmente, o projeto teve início no final de maio de 2012, com a assinatura de um memorando de entendimentos que previa a criação de um grupo de trabalho para o estudo sobre a viabilidade de desenvolver um microssatélite para missão de coleta de dados hidrometeorológicos. Com isso, o projeto avançou relativamente rápido, com a contratação da iniciativa privada para um estudo comparativo de soluções. Em agosto de 2013, a AEB lançou o Edital da Concorrência n.º 01/2013, prevendo a “contratação de empresa especializada para realizar Estudo Comparativo de Soluções para o Sistema de Coleta de Dados Hidrometeorológicos (SCD-Hidro), mediante o regime de empreitada por preço global”.
Dando prosseguimento à licitação, no mês seguinte foram habilitadas três empresas interessadas na concorrência: a Mectron, pertencente ao grupo Odebrecht Defesa e Tecnologia, a Equatorial Sistemas, do grupo Airbus Defence and Space, e a Omnisys Engenharia, controlada pela francesa Thales. O resultado final saiu em outubro, tendo a Equatorial Sistemas sido selecionada com uma proposta de R$ 1,885 milhão. Do estudo comparativo, participam ainda, na qualidade de subcontratadas, a Visiona Tecnologia Espacial, uma joint-venture entre a Embraer e a Telebras, e a Orbital Engenharia, de São José dos Campos (SP).
Propósitos, finalidades e perspectivas
O projeto tem por propósito principal garantir a continuidade dos serviços do Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais, que teve início com os satélites SCD-1 e SCD-2 desenvolvidos pelo INPE e colocados em órbita durante a década de 1990.
Segundo informou a AEB, a proposta atualmente em estudo, direcionada aos interesses da ANA, não apenas atende aos requisitos originais do sistema, mas amplia sua capacidade e funcionalidade, possibilitando o aumento do número de plataformas instaladas, a ampliação dos serviços para além das fronteiras nacionais, além da redução do tempo de revisita, o que permitiria atender também à comunidade que lida com desastres naturais com origem hidrológica. As capacidades do SCD-Hidro também podem vir a servir outros projetos, como o futuro Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz), da Marinha do Brasil, considerando que na atualidade o SBCDA já recebe dados ambientais gerados a partir de plataformas marítimas localizadas em zonas marítimas do Brasil e da África. Ainda, a reportagem apurou que a Comissão de Coordenação e Implantação de Sistemas Espaciais (CCISE), responsável por ações do Ministério da Defesa no âmbito espacial, acompanha a iniciativa com atenção, interessada em sua capacidade de coleta e transmissão de dados gerados em solo.
As alternativas em análise consideram constelações que variam de dois satélites em órbita baixa e equatorial, a até seis satélites também em órbita baixa, mas dispostos em três planos orbitais distintos.
A proposta leva em conta um prazo de até três anos para o primeiro lançamento, contados da data da contratação. Tal prazo, no entanto, dependerá da definição quanto à configuração do sistema em órbita, que poderá ser de lançamento múltiplo, isto é, com todos os satélites sendo lançados ao mesmo tempo, ou por plano orbital, com lançamentos distintos.
A expectativa da AEB é de que o sistema seja contratado até o final de 2014 junto a uma empresa integradora nacional, potencialmente, a Visiona Tecnologia Espacial, que já exerce este papel no SGDC, estratégia em linha com os preceitos do PNAE. Representantes da Visiona, aliás, têm visitado empresas nacionais que poderiam participar do projeto, e também participado de reuniões com possíveis parceiros estrangeiros.
A propósito, uma das parcerias internacionais em consideração é com a Espanha. No final de maio, representantes da AEB, da ANA e da Visiona tiveram uma reunião de apresentação da proposta de cooperação do Centro Espacial da Galícia, ligado à Universidade de Vigo, com o Brasil, envolvendo a missão hidrometeorológica. Segundo divulgou a AEB na ocasião, a ação cooperativa envolveria financiamento de projetos com os recursos de ambas as instituições, com investimentos igualitários entre as partes.
O centro espanhol, que no momento conta com dois cubesats em órbita e prepara o lançamento de outro para breve, coordena uma rede mundial de satélites apoiada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e que possibilita aos países parceiros transmitir e compartilhar dados sobre emergências humanitárias ou outras informações úteis a estudos sobre o câmbio climático e o controle e detecção de incêndios, por meio de sensores orbitais considerados de baixo custo.
Caso a previsão de contratação do SCD-Hidro este ano se confirme, espera-se sua entrada em operação até o final de 2017. Os custos do projeto ainda estão em revisão e, de acordo com a AEB, ainda não há previsão orçamentária para o projeto completo. “Os recursos disponíveis no momento estendem-se por quatro anos, mas a um nível ainda insuficiente para arcar com todos os investimentos”, segundo informação a Agência.
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Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais
A origem do Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais (SBCDA) remonta à Missão Espacial Completa Brasileira (MECB), criada no final da década de 1970 e que buscava dotar o País de autonomia na construção, lançamento e operação de meios espaciais. Dentre as missões compreendidas na missão, estavam os satélites SCD-1 e SCD-2, inspirados no programa franco-americano ARGOS, para coleta de dados ambientais gerados em plataformas terrestres. De fato, 35 anos após a criação da MECB, os satélites de coletas de dados são umas de suas poucas ações bem sucedidas.
Apesar de terem superado em muitos anos suas vidas úteis planejadas, os dois SCD continuam em operação, e ao longo desse tempo foram complementados por transpônderes de coleta de dados instalados em satélites da série CBERS, desenvolvido pelo Brasil em conjunto com a China.
Grosso modo, o SBCDA funciona por meio da retransmissão de mensagens enviadas por centenas de plataformas de coletas de dados, gerados por sensores, distribuídas por todo o território nacional, áreas marítimas e mesmo em alguns países vizinhos. Uma vez recebidas, os satélites armazenam os dados e os retransmitem para estações de recepção localizadas em Cuiabá (MT) e Alcântara (MA), quando visíveis, isto é, com passagens na área de cobertura das estações de recepção. Grande parte das plataformas, conhecidas pela sigla PCD (Plataforma de Coleta de Dados) dispõem de sensores que geram dados meteorológicos, como velocidade e direção dos ventos, umidade e temperatura, e hidrológicos, como os níveis de reservatórios. As PCDs mais modernas contam com painéis solares e baterias que garantem seu funcionamento de forma autônoma.
Os dados são enviados para o Sistema Integrado de Dados Ambientais, (SINDA) situado no Centro Regional do Nordeste do INPE, em Natal (RN), onde são processados, armazenados e disseminados aos usuários, por meio da internet, no prazo máximo de 30 minutos após a recepção.
Além do SCD-Hidro, outra iniciativa que visa dar continuidade ao SBCDA é desenvolvida no CRN/INPE desde 2011. Trata-se do CONASAT, uma constelação de seis nanossatélites, projetados com base na tecnologia dos cubesats. (AMM)
Fonte: revista Tecnologia & Defesa n.º 138, setembro de 2014.
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domingo, 11 de maio de 2014
"Cube e nano satélites - Um novo conceito para o setor espacial"
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Reproduzimos abaixo um artigo sobre cube e nano satélites escrito pelo especialista Otavio Durão, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), publicado na edição n.º 136 da revista Tecnologia & Defesa (março). Leitura recomendada e didática para aqueles que desejam conhecer mais sobre os projetos brasileiros nesse campo.
Cube e nano satélites - Um novo conceito para o setor espacial
Otavio Durão (*)
Projetos espaciais, historicamente, são vistos como uma atividade para poucos. Poucos países e poucas instituições e indivíduos. Isso porque seus custos são altos, sua tecnologia complexa e seus riscos também altos. Esta noção foi corroborada no tempo da Guerra Fria que limitou mais ainda os participantes do clube espacial, porque os detentores desta tecnologia, por razões de defesa, não permitiam o acesso a ela por muitas outras nações, e porque seus custos eram cobertos pelos orçamentos militares. E orçamentos militares tendem a ser generosos quando a ameaça de conflitos existe. Com o fim daquele período, estes orçamentos tenderam à diminuição. Praticamente, todos os programas espaciais no mundo para o setor espacial tiveram sua origem nesta época e se beneficiaram dos gastos com defesa, inclusive o brasileiro, devido ao caráter dual desses programas. As empresas de desenvolvimento de satélites e lançadores foram, na sua grande maioria, também dimensionadas por aqueles investimentos, assim como suas infraestruturas e custos fixos.
Mas este tempo parece estar terminando. As verbas militares encolhem ou a se tornam mais eficientes, e empresas e governos já sentem dificuldades para manter o mesmo nível de carteiras e projetos. O setor espacial está sendo afetado por esta mudança e, claramente, busca saída de redução de custos e maior eficiência, com uma melhor relação custo/benefício dos dados gerados por seus produtos.
Em paralelo, o mundo assistiu nas últimas décadas à revolução eletrônica que atingiu dramática e favoravelmente setores como o de comunicações e computação, para citar dois dos mais visíveis. São componentes mais eficientes, menores, mais baratos e com maior capacidade a cada dia. O campo espacial viu este movimento sem nele se engajar, até aqui, como usuário, por dois motivos. Primeiro, porque havia recursos para pagar por componentes qualificados espacialmente, às vezes ordens de grandeza mais caros, e mais antigos, e também porque o desenvolvimento de um projeto demorava vários anos mantendo-se os componentes escolhidos na fase de especificação. Na presente conjuntura, empresas e governos buscam agora projetos mais baratos, menores, com o uso desses componentes e que possam assimilar/mitigar riscos associados ao meio espacial (radiação notadamente) com esta mudança. Vale dizer que, em muitos casos, não há perda de capacidade com isso, ao contrário.
Histórico
No início deste século, dois professores de Stanford e Cal Poly, nos Estados Unidos, respectivamente Bob Twiggs e Jordi Puig-Suari, “inventaram” (mas não patentearam) um padrão para o desenvolvimento de pequenos satélites. Muito pequenos realmente, e o denominaram de cubesat, devido ao formato de um cubo com 10 cm de aresta, volume de um litro e massa de um quilo. O padrão foi instituído através de um documento de Conceptual Design Specification (CDS), que teve sua 13ª revisão em 2013, ainda preliminar.
O padrão e o desenvolvimento de cubesats, inicialmente, tinha o objetivo de permitir a alunos a praticar com projetos que emulam os maiores, já que são lançados em órbita, transmitem dados a uma estação de solo e possuem vários dos sistemas de um satélite de muito maior porte, como computador de bordo, subsistemas de transmissão e recepção, de energia, controle etc. São ainda capazes de transportar uma carga útil, como uma câmera, um experimento científico ou um componente para ter seu desempenho testado. E isso, a um custo de algumas centenas de milhares de dólares.
O cubesat mais antigo em operação tem mais de 10 anos no espaço, e foi desenvolvido pela Universidade de Tóquio. Vários outros voam há mais de 5, 6 ou 7 anos. Como todos usam somente componentes eletrônicos ditos “de prateleira” (COTS – components off the shelf), ou seja industriais, sem especificação espacial ou mesmo militar, isso começa a criar o que se chama no setor de “herança” espacial (heritage). Ou seja, muitos componentes para radio e computador de bordo, antenas, e outros (exceto as células dos painéis solares que possuem qualificação espacial) já se provaram resistentes à radiação suficientemente para serem incorporados a diversos novos projetos em curso.
Na América do Sul, a Colômbia possui um cubesat em operação há cerca de cinco anos. Peru, Argentina e Equador já lançaram os seus mais de uma vez. Em novembro passado, houve um lançamento simultâneo de 32 cubesats “de carona” em um lançador russo, DNEPR, e cerca de 15 dias após, outros 28 foram lançados por um lançador Minotauro, norte-americano. Ou seja, somente naquele mês, mais de 60 cubesats foram lançados. Um recorde que dá uma ideia do que vem por aí.
O padrão 1U cubesat (cubo de 10 cm de aresta, 1 kg. de massa e 1 litro de volume) começou a ser expandido para 2U, 3U, 6U, 8U, 12U, e assim sucessivamente, simplesmente “montando-se” cubesats maiores com a unidade inicial 1U como se fosse um Lego montado a partir da mesma e preservando-se o padrão cubesat em cada U. Isso proporcionou o desenvolvimento de nano satélites com maiores capacidades operacionais e com objetivos, inclusive comerciais, e científicos. Foi expandida a possibilidade desses engenhos para além da sala de aula e do ambiente acadêmico, passando para os campos industrial e comercial. Muitos dos cubesats lançados em novembro têm essas características e dimensões.
Desenvolvimento, lançamento e operação
Um cubesat 1U segue os padrões mencionados acima e é montado como em um sistema “marmita”, com seus subsistemas colocados em paralelo na estrutura, em um padrão conhecido como PC-104. A figura 1 ilustra um cubesat 1U sem os painéis solares laterais que recobrem todo o cubo. Usualmente, as frequência de transmissão e recepção são em faixas de rádio-amadores (VHF/UHF), mas cubesats mais modernos usam banda S e outras de maior capacidade.
Da mesma forma, a interface com o lançador também é padronizada e denominada POD (Picosatellite Orbit Deployer). O documento CDS também apresenta o padrão para o POD.
Com isso, cubesats podem ser lançados por diferentes vetores por ser padrão a sua interface com eles. Vários lançadores já fizeram isso como PSLV (Índia), Minotauro (Estados Unidos), Vega (Comunidade Europeia) e DNEPR (Rússia), para citar alguns.
O lançamento de um cubesat é sempre feito “de carona”. Aproveita-se um lançamento já existente de um satélite de grande ou médio portes, e adaptam-se POD´s no último estágio do lançador, carregados de cubesats. Essas interfaces estão aumentando de tamanho e capacidade, de forma a levar satélites maiores e em maior número. As estações são, em geral, de baixo custo como todos os itens. Um cubesat 1U pode ser desenvolvido, lançado e ter sua própria estação por cerca de R$ 700 mil.
Projetos nacionais
O primeiro cubesat nacional está previsto para ser lançado em maio/junho deste ano. É o NanosatC-Br1, feito em cooperação entre o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). É do padrão 1U e sua missão científica é medir dados do campo magnético da Terra, com um magnetômetro, principalmente na região conhecida como Anomalia Magnética do Atlântico Sul. Dois outros experimentos tecnológicos voarão juntos, sendo os dois primeiros circuitos integrados projetados no Brasil com características de resistência à radiação, para uso espacial. O primeiro, projetado pela Santa Maria Design House, da UFSM, foi fabricado na Alemanha, pois ainda não havia possibilidade de produzi-lo localmente. O segundo, um produto do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é um software que será colocado em um componente FPGA industrial com característica de tolerância a falhas causadas por radiação. Optou-se por adquirir a plataforma do cubesat de uma empresa internacional, a holandesa ISIS, e oferecer a possibilidade de testes com cargas úteis desenvolvidas no Brasil. Esta é uma das grandes utilidades dos cubesats. Servir de plataforma de testes no espaço de novos componentes, produtos e experimentos.
As cargas úteis do NanosatC-Br1 foram integradas à plataforma, tendo elas e todos os seus subsistemas, performances nominais após a operação. O NanosatC-Br1 passou por testes de vibração e ambientais na segunda quinzena de março, antes de ser enviado para o seu lançamento, já contratado pela Agência Espacial Brasileira (AEB), e será feito em território russo, com o DNEPR. Duas estações de solo foram montadas e encontram-se operacionais recebendo dados de outros cubesats na UFSM e no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).
O mesmo grupo do INPE e da UFSM que atua no NanosatC-Br1 também trabalha, no momento, no NanosatC-Br2, desta vez um 2U, com dois litros de volume e, portanto, praticamente o dobro da capacidade para cargas úteis, que serão uma sonda de Langmuir, para obtenção de dados da ionosfera (experimento de cientistas do INPE), e o primeiro subsistema de determinação de atitude desenvolvido no Brasil, e com tripla redundância (uma cooperação entre o INPE, a Universidade Federal de Minas Gerais, e a Universidade Federal do ABC). O NanosatC-Br2 tem seu lançamento previsto para 2015. Tanto o NanosatC-Br1 quanto o Br-2 são projetos originários do Centro Regional Sul do INPE, localizado em Santa Maria (RS), no campus da UFSM.
Um outro projeto surgiu no Centro Regional Nordeste do INPE, localizado em Natal (RN), no campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Trata-se do CONASAT, de maior porte, com o uso de um nano satélite 8U, no padrão cubesat. Suas pretensões são substituir o atual sistema SCD (Satélite de Coleta de Dados), lançados em 1993 e 1998, e ainda em operação. Enquanto os SCD-1 e 2 têm massa superior a 100 kg cada e consistem em um prisma octogonal com cerca de um metro de altura, o CONASAT tem 8,4 kg, com redundância em todos os seus subsistemas e carga útil, e consiste de um cubo de 20 cm de aresta. O transponder de carga útil, desenvolvido em cooperação com a UFRN, utiliza os padrões cubesat e constitui-se de três placas de 10X10 cm com massa inferior a 300 g. Seu modelo de engenharia está em testes e a plataforma do satélite poderá estar disponível no final deste ano.
Vários outros projetos de cubesats estão em andamento no Brasil, como o do Instituto Federal Fluminense (IFF), em parceria com uma universidade espanhola, e aceito para fazer parte da missão da Agência Espacial Europeia chamada QB50, que lançará simultaneamente 50 cubesats para medidas atmosféricas. O ITA, em conjunto com o INPE, também trabalha em um cubesat, o AESP-14, com o intuito de desenvolver os subsistemas de uma plataforma 1U. Algumas outras universidades brasileiras também atuam ou estão em processo de se iniciar no campo dos cubesats, como a Universidade de São Paulo, a Universidade Federal de Santa Catarina e a Universidade Federal de Minas Gerais.
Assim como o meio civil busca aplicações em que cube e nano satélites possam ser utilizados por seus baixos custos, o setor de defesa também o faz. A Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) lançou, no fim do ano passado, os seus primeiros cubesats para comunicação de pacotes de voz para áreas remotas. O Brasil participa, através do Comando da Aeronáutica, do rastreio desses sobre o território nacional em cooperação com a USAF. Sensoriamento remoto e infravermelho estão em análise. Uma outra aplicação em testes é para sistemas de identificação de navios (AIS – Automatic Identification Systems), como o Tríton, cujo primeiro cubesat da constelação foi lançado em novembro de 2013 para prova de conceito. O Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE), do Ministério da Defesa, não prevê a utilização de cube e nano satélites, o que pode ter sido um erro, em virtude da necessidade do requisito do uso de satélites com Estoque de cubesats. Até onde se poderá ir? Esta é a grande questão que o setor espacial, indústria e academia tentam responder. Que tipo de aplicações esses satélites poderão suprir? As perspectivas hoje eram inimagináveis há dois ou três anos. Devido aos custos, muitos países antes não relevantes na corrida espacial poderão participar. Entretanto, ali são previstos recursos para estimular o desenvolvimento desse tipo de satélites.
Possibilidades futuras e dificuldades
Nem todos os projetos espaciais poderão ser substituídos por cube e nano satélites. Há limites de geração e armazenamento de energia a bordo para certas aplicações que inviabilizarão o seu uso em algumas aplicações. Mas, ainda nesses casos, eles podem ser complementares e cobrir estágios intermediários.
Há também dificuldades a serem superadas como o excesso de debris que causarão no espaço, a maior agilidade do setor de regulamentação, principalmente para a concessão de frequência (em comparação com o prazo para o seu desenvolvimento) e a oferta de pequenos lançadores para lançamentos dedicados, em que não se tenha que utilizar a mesma órbita do lançamento principal.
Por outro lado, o uso de constelações desses satélites, além do aumento em massa e volume do uso do padrão cubesat para satélites na classe de 10 a 20 kg., aumentará em muito a capacidade e o potencial de uso. Empresas como a Planet Labs pensam em grandes constelações. Assim, já assinou um contrato com a Google que prevê constelações de até 1.600 satélites cubesat! Este número é o dobro do total de satélites lançados até hoje. E, a produção já começou.
* Otavio Durão é engenheiro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Fonte: revista Tecnologia & Defesa n.º 136, março de 2014.
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Reproduzimos abaixo um artigo sobre cube e nano satélites escrito pelo especialista Otavio Durão, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), publicado na edição n.º 136 da revista Tecnologia & Defesa (março). Leitura recomendada e didática para aqueles que desejam conhecer mais sobre os projetos brasileiros nesse campo.
Cube e nano satélites - Um novo conceito para o setor espacial
Otavio Durão (*)
Projetos espaciais, historicamente, são vistos como uma atividade para poucos. Poucos países e poucas instituições e indivíduos. Isso porque seus custos são altos, sua tecnologia complexa e seus riscos também altos. Esta noção foi corroborada no tempo da Guerra Fria que limitou mais ainda os participantes do clube espacial, porque os detentores desta tecnologia, por razões de defesa, não permitiam o acesso a ela por muitas outras nações, e porque seus custos eram cobertos pelos orçamentos militares. E orçamentos militares tendem a ser generosos quando a ameaça de conflitos existe. Com o fim daquele período, estes orçamentos tenderam à diminuição. Praticamente, todos os programas espaciais no mundo para o setor espacial tiveram sua origem nesta época e se beneficiaram dos gastos com defesa, inclusive o brasileiro, devido ao caráter dual desses programas. As empresas de desenvolvimento de satélites e lançadores foram, na sua grande maioria, também dimensionadas por aqueles investimentos, assim como suas infraestruturas e custos fixos.
Mas este tempo parece estar terminando. As verbas militares encolhem ou a se tornam mais eficientes, e empresas e governos já sentem dificuldades para manter o mesmo nível de carteiras e projetos. O setor espacial está sendo afetado por esta mudança e, claramente, busca saída de redução de custos e maior eficiência, com uma melhor relação custo/benefício dos dados gerados por seus produtos.
Em paralelo, o mundo assistiu nas últimas décadas à revolução eletrônica que atingiu dramática e favoravelmente setores como o de comunicações e computação, para citar dois dos mais visíveis. São componentes mais eficientes, menores, mais baratos e com maior capacidade a cada dia. O campo espacial viu este movimento sem nele se engajar, até aqui, como usuário, por dois motivos. Primeiro, porque havia recursos para pagar por componentes qualificados espacialmente, às vezes ordens de grandeza mais caros, e mais antigos, e também porque o desenvolvimento de um projeto demorava vários anos mantendo-se os componentes escolhidos na fase de especificação. Na presente conjuntura, empresas e governos buscam agora projetos mais baratos, menores, com o uso desses componentes e que possam assimilar/mitigar riscos associados ao meio espacial (radiação notadamente) com esta mudança. Vale dizer que, em muitos casos, não há perda de capacidade com isso, ao contrário.
Histórico
No início deste século, dois professores de Stanford e Cal Poly, nos Estados Unidos, respectivamente Bob Twiggs e Jordi Puig-Suari, “inventaram” (mas não patentearam) um padrão para o desenvolvimento de pequenos satélites. Muito pequenos realmente, e o denominaram de cubesat, devido ao formato de um cubo com 10 cm de aresta, volume de um litro e massa de um quilo. O padrão foi instituído através de um documento de Conceptual Design Specification (CDS), que teve sua 13ª revisão em 2013, ainda preliminar.
O padrão e o desenvolvimento de cubesats, inicialmente, tinha o objetivo de permitir a alunos a praticar com projetos que emulam os maiores, já que são lançados em órbita, transmitem dados a uma estação de solo e possuem vários dos sistemas de um satélite de muito maior porte, como computador de bordo, subsistemas de transmissão e recepção, de energia, controle etc. São ainda capazes de transportar uma carga útil, como uma câmera, um experimento científico ou um componente para ter seu desempenho testado. E isso, a um custo de algumas centenas de milhares de dólares.
O cubesat mais antigo em operação tem mais de 10 anos no espaço, e foi desenvolvido pela Universidade de Tóquio. Vários outros voam há mais de 5, 6 ou 7 anos. Como todos usam somente componentes eletrônicos ditos “de prateleira” (COTS – components off the shelf), ou seja industriais, sem especificação espacial ou mesmo militar, isso começa a criar o que se chama no setor de “herança” espacial (heritage). Ou seja, muitos componentes para radio e computador de bordo, antenas, e outros (exceto as células dos painéis solares que possuem qualificação espacial) já se provaram resistentes à radiação suficientemente para serem incorporados a diversos novos projetos em curso.
Na América do Sul, a Colômbia possui um cubesat em operação há cerca de cinco anos. Peru, Argentina e Equador já lançaram os seus mais de uma vez. Em novembro passado, houve um lançamento simultâneo de 32 cubesats “de carona” em um lançador russo, DNEPR, e cerca de 15 dias após, outros 28 foram lançados por um lançador Minotauro, norte-americano. Ou seja, somente naquele mês, mais de 60 cubesats foram lançados. Um recorde que dá uma ideia do que vem por aí.
O padrão 1U cubesat (cubo de 10 cm de aresta, 1 kg. de massa e 1 litro de volume) começou a ser expandido para 2U, 3U, 6U, 8U, 12U, e assim sucessivamente, simplesmente “montando-se” cubesats maiores com a unidade inicial 1U como se fosse um Lego montado a partir da mesma e preservando-se o padrão cubesat em cada U. Isso proporcionou o desenvolvimento de nano satélites com maiores capacidades operacionais e com objetivos, inclusive comerciais, e científicos. Foi expandida a possibilidade desses engenhos para além da sala de aula e do ambiente acadêmico, passando para os campos industrial e comercial. Muitos dos cubesats lançados em novembro têm essas características e dimensões.
Desenvolvimento, lançamento e operação
Um cubesat 1U segue os padrões mencionados acima e é montado como em um sistema “marmita”, com seus subsistemas colocados em paralelo na estrutura, em um padrão conhecido como PC-104. A figura 1 ilustra um cubesat 1U sem os painéis solares laterais que recobrem todo o cubo. Usualmente, as frequência de transmissão e recepção são em faixas de rádio-amadores (VHF/UHF), mas cubesats mais modernos usam banda S e outras de maior capacidade.
Da mesma forma, a interface com o lançador também é padronizada e denominada POD (Picosatellite Orbit Deployer). O documento CDS também apresenta o padrão para o POD.
Com isso, cubesats podem ser lançados por diferentes vetores por ser padrão a sua interface com eles. Vários lançadores já fizeram isso como PSLV (Índia), Minotauro (Estados Unidos), Vega (Comunidade Europeia) e DNEPR (Rússia), para citar alguns.
O lançamento de um cubesat é sempre feito “de carona”. Aproveita-se um lançamento já existente de um satélite de grande ou médio portes, e adaptam-se POD´s no último estágio do lançador, carregados de cubesats. Essas interfaces estão aumentando de tamanho e capacidade, de forma a levar satélites maiores e em maior número. As estações são, em geral, de baixo custo como todos os itens. Um cubesat 1U pode ser desenvolvido, lançado e ter sua própria estação por cerca de R$ 700 mil.
Projetos nacionais
O primeiro cubesat nacional está previsto para ser lançado em maio/junho deste ano. É o NanosatC-Br1, feito em cooperação entre o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). É do padrão 1U e sua missão científica é medir dados do campo magnético da Terra, com um magnetômetro, principalmente na região conhecida como Anomalia Magnética do Atlântico Sul. Dois outros experimentos tecnológicos voarão juntos, sendo os dois primeiros circuitos integrados projetados no Brasil com características de resistência à radiação, para uso espacial. O primeiro, projetado pela Santa Maria Design House, da UFSM, foi fabricado na Alemanha, pois ainda não havia possibilidade de produzi-lo localmente. O segundo, um produto do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é um software que será colocado em um componente FPGA industrial com característica de tolerância a falhas causadas por radiação. Optou-se por adquirir a plataforma do cubesat de uma empresa internacional, a holandesa ISIS, e oferecer a possibilidade de testes com cargas úteis desenvolvidas no Brasil. Esta é uma das grandes utilidades dos cubesats. Servir de plataforma de testes no espaço de novos componentes, produtos e experimentos.
As cargas úteis do NanosatC-Br1 foram integradas à plataforma, tendo elas e todos os seus subsistemas, performances nominais após a operação. O NanosatC-Br1 passou por testes de vibração e ambientais na segunda quinzena de março, antes de ser enviado para o seu lançamento, já contratado pela Agência Espacial Brasileira (AEB), e será feito em território russo, com o DNEPR. Duas estações de solo foram montadas e encontram-se operacionais recebendo dados de outros cubesats na UFSM e no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).
O mesmo grupo do INPE e da UFSM que atua no NanosatC-Br1 também trabalha, no momento, no NanosatC-Br2, desta vez um 2U, com dois litros de volume e, portanto, praticamente o dobro da capacidade para cargas úteis, que serão uma sonda de Langmuir, para obtenção de dados da ionosfera (experimento de cientistas do INPE), e o primeiro subsistema de determinação de atitude desenvolvido no Brasil, e com tripla redundância (uma cooperação entre o INPE, a Universidade Federal de Minas Gerais, e a Universidade Federal do ABC). O NanosatC-Br2 tem seu lançamento previsto para 2015. Tanto o NanosatC-Br1 quanto o Br-2 são projetos originários do Centro Regional Sul do INPE, localizado em Santa Maria (RS), no campus da UFSM.
Um outro projeto surgiu no Centro Regional Nordeste do INPE, localizado em Natal (RN), no campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Trata-se do CONASAT, de maior porte, com o uso de um nano satélite 8U, no padrão cubesat. Suas pretensões são substituir o atual sistema SCD (Satélite de Coleta de Dados), lançados em 1993 e 1998, e ainda em operação. Enquanto os SCD-1 e 2 têm massa superior a 100 kg cada e consistem em um prisma octogonal com cerca de um metro de altura, o CONASAT tem 8,4 kg, com redundância em todos os seus subsistemas e carga útil, e consiste de um cubo de 20 cm de aresta. O transponder de carga útil, desenvolvido em cooperação com a UFRN, utiliza os padrões cubesat e constitui-se de três placas de 10X10 cm com massa inferior a 300 g. Seu modelo de engenharia está em testes e a plataforma do satélite poderá estar disponível no final deste ano.
Vários outros projetos de cubesats estão em andamento no Brasil, como o do Instituto Federal Fluminense (IFF), em parceria com uma universidade espanhola, e aceito para fazer parte da missão da Agência Espacial Europeia chamada QB50, que lançará simultaneamente 50 cubesats para medidas atmosféricas. O ITA, em conjunto com o INPE, também trabalha em um cubesat, o AESP-14, com o intuito de desenvolver os subsistemas de uma plataforma 1U. Algumas outras universidades brasileiras também atuam ou estão em processo de se iniciar no campo dos cubesats, como a Universidade de São Paulo, a Universidade Federal de Santa Catarina e a Universidade Federal de Minas Gerais.
Assim como o meio civil busca aplicações em que cube e nano satélites possam ser utilizados por seus baixos custos, o setor de defesa também o faz. A Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) lançou, no fim do ano passado, os seus primeiros cubesats para comunicação de pacotes de voz para áreas remotas. O Brasil participa, através do Comando da Aeronáutica, do rastreio desses sobre o território nacional em cooperação com a USAF. Sensoriamento remoto e infravermelho estão em análise. Uma outra aplicação em testes é para sistemas de identificação de navios (AIS – Automatic Identification Systems), como o Tríton, cujo primeiro cubesat da constelação foi lançado em novembro de 2013 para prova de conceito. O Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE), do Ministério da Defesa, não prevê a utilização de cube e nano satélites, o que pode ter sido um erro, em virtude da necessidade do requisito do uso de satélites com Estoque de cubesats. Até onde se poderá ir? Esta é a grande questão que o setor espacial, indústria e academia tentam responder. Que tipo de aplicações esses satélites poderão suprir? As perspectivas hoje eram inimagináveis há dois ou três anos. Devido aos custos, muitos países antes não relevantes na corrida espacial poderão participar. Entretanto, ali são previstos recursos para estimular o desenvolvimento desse tipo de satélites.
Possibilidades futuras e dificuldades
Nem todos os projetos espaciais poderão ser substituídos por cube e nano satélites. Há limites de geração e armazenamento de energia a bordo para certas aplicações que inviabilizarão o seu uso em algumas aplicações. Mas, ainda nesses casos, eles podem ser complementares e cobrir estágios intermediários.
Há também dificuldades a serem superadas como o excesso de debris que causarão no espaço, a maior agilidade do setor de regulamentação, principalmente para a concessão de frequência (em comparação com o prazo para o seu desenvolvimento) e a oferta de pequenos lançadores para lançamentos dedicados, em que não se tenha que utilizar a mesma órbita do lançamento principal.
Por outro lado, o uso de constelações desses satélites, além do aumento em massa e volume do uso do padrão cubesat para satélites na classe de 10 a 20 kg., aumentará em muito a capacidade e o potencial de uso. Empresas como a Planet Labs pensam em grandes constelações. Assim, já assinou um contrato com a Google que prevê constelações de até 1.600 satélites cubesat! Este número é o dobro do total de satélites lançados até hoje. E, a produção já começou.
* Otavio Durão é engenheiro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Fonte: revista Tecnologia & Defesa n.º 136, março de 2014.
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segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Entrevistas: Leonel Perondi, diretor do INPE
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Conforme revelado na última quinta-feira, damos início hoje à série "Entrevistas". O primeiro entrevistado foi Leonel Fernando Perondi, que desde maio de 2012 é diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), principal instituição executora dos programas de satélites nacionais.
A conversa foi centrada nos programas do Instituto no segmento espacial, isto é, satélites. Apresentamos a seguir os principais trechos. No final da entrevista, incluímos pequenos comentários elaborados pelo blog Panorama Espacial, identificados ao longo do texto (entre colchetes e destacados em itálico e grifados) analisando e dando algumas informações adicionais sobre os tópicos abordados.
CBERS e política industrial
A entrevista, realizada por telefone, começou abordando o principal projeto de satélite desenvolvido pelo INPE: o programa do Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS). Perondi destacou a entrada do programa em sua segunda fase, com a expectativa para o lançamento do primeiro satélite da segunda geração, o CBERS 3, no próximo mês de dezembro. O CBERS 4 deverá ser lançado dois anos depois. Mencionou ainda o fato do satélite contar com quatro sensores óticos e também com um transpônder de coleta de dados, que reforçará o Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais (SBCD). Deu também ênfase ao seu caráter industrial, enfatizando o fato de que os dois modelos foram contratados junto à indústria nacional, gerando ao todo cerca de R$370 milhões em contratos. "É essencialmente um programa de política industrial", destacou.
Questionado sobre a continuidade do programa, o diretor afirmou que existem discussões visando uma nova geração, e que esta é a posição do INPE, na qualidade de executor da missão. "Mas, tem que ter sempre o elemento de inovação". Em sua opinião, o CBERS trouxe visibilidade internacional, mas é preciso ir além. "[Hoje], são satélites de rotina para a China, e esta é a nossa ideia também".
Perondi entende que as próximas unidades, em caso de continuidade, podem ser inteiramente contratadas junto à indústria nacional, atendendo as necessidades nacionais em sensoriamento remoto e funcionando como um instrumento de política industrial. Desde 2005, existem propostas do lado chinês para uma extensão da cooperação espacial [Nota 1].
Amazônia-1
Após o CBERS, a pergunta natural foi sobre o projeto do satélite de observação Amazônia-1, baseado na Plataforma Multimissão (PMM). Perondi respondeu dando um panorama sobre a PMM e a sua primeira missão, ressaltando que o projeto da plataforma foi contratado na indústria em 2001 sem uma linha de base, com uma amplitude grande para aplicações multimissão. "São quase doze anos de desenvolvimento do projeto." "Nenhum subsistema tem herança de voo, o que é um desafio grande", disse.
O Amazônia-1, especificamente, está em revisão e pode ser lançado em dois anos, informou, revelando ainda que a forma de contratação gerou certas dificuldades de relacionamento com a indústria, algo que está em discussão no âmbito de direito administrativo. "O INPE está mobilizado em definir o cronograma de satélites."
Cubesats e nanossatélites
Perguntamos ao diretor do INPE sobre alguns projetos de cubesats e nanossatélites que têm sido desenvolvidos pelo Instituto. De acordo com ele, são missões ainda experimentais e em escala reduzida, envolvendo as unidades do Centro Regional do Nordeste (Conasat) e Centro Regional Sul (NanosatC-BR), com forte objetivo de aprendizagem. "Estamos aguardando os resultados, e temos que ver o lado de aplicações também", afirmou.
Satélites radar, meteorológico e Lattes
Perondi enfatizou que a prioridade do INPE é o CBERS e, em seguida, o Amazônia-1 (PMM). Mas, há também outros projetos e possibilidades no âmbito espacial. Um deles é o satélite radar, no passado, quando planejado em parceria com a Alemanha, denominado MAPSAR.
Em discussão desde 2003 e constante no Programa Espacial desde o PNAE 2005-2014, o diretor afirmou que o satélite radar teve como alternativa considerada apenas uma configuração com antena refletora, e não planar, dando indicativo de que sua configuração está sendo discutida. "A demanda para estas imagens continua existindo, e uma parceria internacional é possível".
Sobre uma missão meteorológica, afirmou que esta já consta do PNAE desde 2004 (período 2005-2014), e que é uma necessidade do País. "[Esta] já deveria estar no horizonte nos próximos dez anos". Há certa expectativa sobre o arranjo para a sua viabilização.
Em relação ao satélite Lattes, de aplicações científicas, Perondi revelou que deve ser repensada. "A missão é extremamente desafiadora em razão da integração da plataforma e das cargas úteis." Existe a possibilidade de que o Lattes, surgido a partir da "fusão" dos projetos de microssatélites EQUARS e MIRAX, venha a ser dividida em duas plataformas menores. Esta estratégia, aliás, estaria alinhada à ideia do INPE de retomar as missões de pequenas plataformas, que poderiam ainda incluir missões com transpônderes para atender o SBCD.
SGDC
A respeito da participação e/ou ganhos esperados pelo INPE com o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC), Perondi foi sucinto, citando que o satélite atenderá demandas nacionais imediatas (banda larga e comunicações militares), e que o Instituto pode se beneficiar no futuro por meio do Laboratório de Integração e Testes (citou o caso de alguns satélites da série Brasilsat, que tiveram módulos testados no laboratório), e com oportunidades para a formação de pessoal no exterior.
Perspectivas de novos contratos para a indústria?
A entrevista foi encerrada com uma questão sobre a perspectiva de novos contratos em curto ou médio prazos para a indústria espacial brasileira, uma vez que os satélites CBERS e o Amazônia-1 já estão praticamente 100% contratados. O dirigente ressaltou que o papel do INPE é de executor e não de planejador do Programa Espacial, mas que o Instituto "olha com preocupação o futuro", respondendo ao comentário do entrevistador sobre a situação da indústria na atualidade [Nota 2].
O dirigente mencionou que nos últimos dez anos, o Instituto contratou mais de R$500 milhões com a indústria e que existem expectativas e novos contratos, sem, no entanto, indicar datas. Citou, como exemplo, o satélite em cooperação com a Argentina (SABIA-MAR), e também missões para coletas de dados [Nota 3].
Notas do blog:
Nota 1: entre os dias 4 e 9 de novembro, acontecerá na China a III Reunião da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN), mecanismo de diálogo político de mais alto nível entre Brasil e China. Sua estrutura inclui onze subcomissões, inclusive uma espacial. A expectativa é que no encontro, cujo lado brasileiro será chefiado por Michel Temer, vice-presidente da República, seja aprovado o Plano Decenal de Cooperação Espacial entre os dois países.
Nota 2: ao questionarmos sobre novos contratos, destacamos os receios da indústria espacial, que tem passado por certas dificuldades (algumas, devemos dizer, de sua própria responsabilidade). Apesar da expectativa de que o SGDC possa de alguma forma beneficiar a indústria local, tais benefícios não serão imediatos, podem não ter efeitos financeiros diretos (transferência de tecnologia não necessariamente gera vendas) e serão sentidos apenas após vários anos. Ressalte-se, aliás, que o contrato para a construção do primeiro satélite ainda não foi assinado. Especificamente sobre a situação da indústria local, o blog tem conhecimento de ao menos duas empresas que estão demitindo pessoal ou prestes a demitir. Ainda, é fato amplamente conhecido no setor a gravíssima crise financeira por que passa uma das principais indústrias brasileiras do setor (abordaremos este caso, em detalhes, mais adiante).
Nota 3: de acordo com as informações apuradas pelo blog Panorama Espacial, há discussões no âmbito do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e AEB para a contratação da missão SABIA-MAR, em conjunto com a Argentina. O modelo analisado envolveria um prime contractor industrial, no qual a Visiona Tecnologia Espacial, surgiria como mais forte candidata. Em relação aos satélites para atender o SBCD, é possível que haja a participação do Comando da Aeronáutica (Ministério da Defesa), e também da Agência Nacional de Águas (ANA), subordinada ao Ministério do Meio Ambiente.
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Conforme revelado na última quinta-feira, damos início hoje à série "Entrevistas". O primeiro entrevistado foi Leonel Fernando Perondi, que desde maio de 2012 é diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), principal instituição executora dos programas de satélites nacionais.
A conversa foi centrada nos programas do Instituto no segmento espacial, isto é, satélites. Apresentamos a seguir os principais trechos. No final da entrevista, incluímos pequenos comentários elaborados pelo blog Panorama Espacial, identificados ao longo do texto (entre colchetes e destacados em itálico e grifados) analisando e dando algumas informações adicionais sobre os tópicos abordados.
CBERS e política industrial
A entrevista, realizada por telefone, começou abordando o principal projeto de satélite desenvolvido pelo INPE: o programa do Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS). Perondi destacou a entrada do programa em sua segunda fase, com a expectativa para o lançamento do primeiro satélite da segunda geração, o CBERS 3, no próximo mês de dezembro. O CBERS 4 deverá ser lançado dois anos depois. Mencionou ainda o fato do satélite contar com quatro sensores óticos e também com um transpônder de coleta de dados, que reforçará o Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais (SBCD). Deu também ênfase ao seu caráter industrial, enfatizando o fato de que os dois modelos foram contratados junto à indústria nacional, gerando ao todo cerca de R$370 milhões em contratos. "É essencialmente um programa de política industrial", destacou.
Questionado sobre a continuidade do programa, o diretor afirmou que existem discussões visando uma nova geração, e que esta é a posição do INPE, na qualidade de executor da missão. "Mas, tem que ter sempre o elemento de inovação". Em sua opinião, o CBERS trouxe visibilidade internacional, mas é preciso ir além. "[Hoje], são satélites de rotina para a China, e esta é a nossa ideia também".
Perondi entende que as próximas unidades, em caso de continuidade, podem ser inteiramente contratadas junto à indústria nacional, atendendo as necessidades nacionais em sensoriamento remoto e funcionando como um instrumento de política industrial. Desde 2005, existem propostas do lado chinês para uma extensão da cooperação espacial [Nota 1].
Amazônia-1
Após o CBERS, a pergunta natural foi sobre o projeto do satélite de observação Amazônia-1, baseado na Plataforma Multimissão (PMM). Perondi respondeu dando um panorama sobre a PMM e a sua primeira missão, ressaltando que o projeto da plataforma foi contratado na indústria em 2001 sem uma linha de base, com uma amplitude grande para aplicações multimissão. "São quase doze anos de desenvolvimento do projeto." "Nenhum subsistema tem herança de voo, o que é um desafio grande", disse.
O Amazônia-1, especificamente, está em revisão e pode ser lançado em dois anos, informou, revelando ainda que a forma de contratação gerou certas dificuldades de relacionamento com a indústria, algo que está em discussão no âmbito de direito administrativo. "O INPE está mobilizado em definir o cronograma de satélites."
Cubesats e nanossatélites
Perguntamos ao diretor do INPE sobre alguns projetos de cubesats e nanossatélites que têm sido desenvolvidos pelo Instituto. De acordo com ele, são missões ainda experimentais e em escala reduzida, envolvendo as unidades do Centro Regional do Nordeste (Conasat) e Centro Regional Sul (NanosatC-BR), com forte objetivo de aprendizagem. "Estamos aguardando os resultados, e temos que ver o lado de aplicações também", afirmou.
Satélites radar, meteorológico e Lattes
Perondi enfatizou que a prioridade do INPE é o CBERS e, em seguida, o Amazônia-1 (PMM). Mas, há também outros projetos e possibilidades no âmbito espacial. Um deles é o satélite radar, no passado, quando planejado em parceria com a Alemanha, denominado MAPSAR.
Em discussão desde 2003 e constante no Programa Espacial desde o PNAE 2005-2014, o diretor afirmou que o satélite radar teve como alternativa considerada apenas uma configuração com antena refletora, e não planar, dando indicativo de que sua configuração está sendo discutida. "A demanda para estas imagens continua existindo, e uma parceria internacional é possível".
Sobre uma missão meteorológica, afirmou que esta já consta do PNAE desde 2004 (período 2005-2014), e que é uma necessidade do País. "[Esta] já deveria estar no horizonte nos próximos dez anos". Há certa expectativa sobre o arranjo para a sua viabilização.
Em relação ao satélite Lattes, de aplicações científicas, Perondi revelou que deve ser repensada. "A missão é extremamente desafiadora em razão da integração da plataforma e das cargas úteis." Existe a possibilidade de que o Lattes, surgido a partir da "fusão" dos projetos de microssatélites EQUARS e MIRAX, venha a ser dividida em duas plataformas menores. Esta estratégia, aliás, estaria alinhada à ideia do INPE de retomar as missões de pequenas plataformas, que poderiam ainda incluir missões com transpônderes para atender o SBCD.
SGDC
A respeito da participação e/ou ganhos esperados pelo INPE com o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC), Perondi foi sucinto, citando que o satélite atenderá demandas nacionais imediatas (banda larga e comunicações militares), e que o Instituto pode se beneficiar no futuro por meio do Laboratório de Integração e Testes (citou o caso de alguns satélites da série Brasilsat, que tiveram módulos testados no laboratório), e com oportunidades para a formação de pessoal no exterior.
Perspectivas de novos contratos para a indústria?
A entrevista foi encerrada com uma questão sobre a perspectiva de novos contratos em curto ou médio prazos para a indústria espacial brasileira, uma vez que os satélites CBERS e o Amazônia-1 já estão praticamente 100% contratados. O dirigente ressaltou que o papel do INPE é de executor e não de planejador do Programa Espacial, mas que o Instituto "olha com preocupação o futuro", respondendo ao comentário do entrevistador sobre a situação da indústria na atualidade [Nota 2].
O dirigente mencionou que nos últimos dez anos, o Instituto contratou mais de R$500 milhões com a indústria e que existem expectativas e novos contratos, sem, no entanto, indicar datas. Citou, como exemplo, o satélite em cooperação com a Argentina (SABIA-MAR), e também missões para coletas de dados [Nota 3].
Notas do blog:
Nota 1: entre os dias 4 e 9 de novembro, acontecerá na China a III Reunião da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN), mecanismo de diálogo político de mais alto nível entre Brasil e China. Sua estrutura inclui onze subcomissões, inclusive uma espacial. A expectativa é que no encontro, cujo lado brasileiro será chefiado por Michel Temer, vice-presidente da República, seja aprovado o Plano Decenal de Cooperação Espacial entre os dois países.
Nota 2: ao questionarmos sobre novos contratos, destacamos os receios da indústria espacial, que tem passado por certas dificuldades (algumas, devemos dizer, de sua própria responsabilidade). Apesar da expectativa de que o SGDC possa de alguma forma beneficiar a indústria local, tais benefícios não serão imediatos, podem não ter efeitos financeiros diretos (transferência de tecnologia não necessariamente gera vendas) e serão sentidos apenas após vários anos. Ressalte-se, aliás, que o contrato para a construção do primeiro satélite ainda não foi assinado. Especificamente sobre a situação da indústria local, o blog tem conhecimento de ao menos duas empresas que estão demitindo pessoal ou prestes a demitir. Ainda, é fato amplamente conhecido no setor a gravíssima crise financeira por que passa uma das principais indústrias brasileiras do setor (abordaremos este caso, em detalhes, mais adiante).
Nota 3: de acordo com as informações apuradas pelo blog Panorama Espacial, há discussões no âmbito do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e AEB para a contratação da missão SABIA-MAR, em conjunto com a Argentina. O modelo analisado envolveria um prime contractor industrial, no qual a Visiona Tecnologia Espacial, surgiria como mais forte candidata. Em relação aos satélites para atender o SBCD, é possível que haja a participação do Comando da Aeronáutica (Ministério da Defesa), e também da Agência Nacional de Águas (ANA), subordinada ao Ministério do Meio Ambiente.
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segunda-feira, 20 de agosto de 2012
As visitas de José Raimundo Coelho, da AEB
No CLBI e CRN-INPE ...
A Agência Espacial Brasileira (AEB) divulgou em seu website uma notícia reportando a visita este mês de seu presidente, José Raimundo Coelho, ao Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), e ao Centro Regional do Nordeste (CRN), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O propósito das visitas foi "aumentar a integração entre os órgãos do sistema nacional de atividades espaciais."
Na visita ao CRN, Raimundo Coelho participou da apresentação do Projeto CONASAT – Constelação de Nano Satélites para Coleta de Dados Ambientais, iniciativa que tem como objetivo principal conceber uma solução para o Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais – SBCD, baseada no uso de nanossatélites (satélites de 1 a 10 kg) e em tecnologias emergentes nos ramos da eletrônica e de telecomunicações. O projeto CONASAT é uma das alternativas consideradas para dar continuidade ao SBCD. Para saber mais sobre o projeto, acesse http://www.crn2.inpe.br/conasat/
... No DCTA ...
Este mês, o presidente da AEB também esteve no Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em São José dos Campos (SP), onde foi recebido pelo diretor-geral, Ten. Brig. Ailton Pohlmann e outros dirigentes. “Queremos cada vez mais trabalhar de forma integrada com todo o sistema de gestão da área espacial, fortalecendo, dessa forma, os Institutos de Pesquisa e consolidando o setor industrial”, afirmou Coelho em nota distribuída por sua assessoria.
... E na inauguração das novas instalações da Fibraforte
Em 10 de agosto, logo após seu retorno de viagem oficial à Ucrânia, José Raimundo Coelho este em São José dos Campos para a inauguração da nova sede da Fibraforte Engenharia, indústria atuante no Programa Espacial Brasileiro, em áreas como estruturas e sistemas mecânicos (caso da PMM, por exemplo), sistemas de propulsão e equipamentos de suporte.
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