domingo, 28 de dezembro de 2014

"O foguete Angará-A5 lança Rússia à nova órbita geopolítica?", artigo de José Monserrat Filho

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O foguete Angará-A5 lança Rússia à nova órbita geopolítica?

José Monserrat Filho

“Não podemos deixar o passado para trás e apenas cruzar os dedos: sabemos por experiência que a política, como a natureza, abomina o vácuo.” Tony Judt¹

A Rússia parece ter liquidado vários coelhos com uma só cajadada. O lançamento bem sucedido de seu novo foguete Angará-5A, peso pesado, em 23 de dezembro, da base russa de Plesetsk, é presente dos céus para o Natal do Kremlin – o primeiro foguete criado no país desde o fim da União Soviética (URSS). Veio resolver muitos de seus problemas espaciais estratégicos.

Não por acaso ou propaganda, foi chamado de “marco significativo na história da indústria de foguetes da Rússia, abrindo a ela o acesso independente ao espaço”.²

Na verdade, a Rússia reabriu esse acesso. A URSS já tinha conquistado esse privilégio em 4 de outubro de 1957, quando lançou o Semyorka³, poderoso foguete pioneiro que pôs em órbita o satélite não menos pioneiro, o Sputnik I. Mas a dissolução da URSS, a partir de 1990, rompeu a unidade da indústria aeroespacial soviética. Fábricas, escritórios de projetos e outras instalações essenciais ficaram distribuídos entre as novos países que se tornaram independentes. As lideranças nacionais de então não perceberam o mal que essa separação traria a todos eles.

A Rússia foi, claro, o país mais afetado. Ficou dependente do Casaquistão, onde se encontra  a histórica base de Baikonur – berço das maiores conquistas espaciais soviéticas –, e da Ucrânia, onde são produzidos e mantidos os foguetes Zenit, Dnepr e Cyclone.

Fabricado em Dnepropetrovsk, capital da indústria espacial ucraniana, o Cyclone já foi lançado da base de Plasetsk mais de 120 vezes, segundo o Ministério de Defesa russo.

Isso significa que, durante muitos anos ainda, depois do fim da URSS, os laços entre as indústrias militares e espaciais da Rússia e da Ucrânia se mantiveram firmes. A Ucrânia continuou fornecendo assistência técnica aos mísseis balísticos intercontinentais e veículos lançadores russos.

Além disso, o foguete ucraniano Zenit-3SL tornou-se peça essencial do consórcio “Sea Launch”, criado em 1995 por quatro empresas – da Noruega, Rússia, Ucrânia e EUA –, sob a égide da Boeing americana, para realizar lançamentos comerciais de uma plataforma marítima (Odyssey) estacionada no Oceano Pacífico, bem em cima da linha do Equador, posição ideal para lançamentos seguros e competitivos. Desde 1999, quando fez sua estreia, o Sea Launch efetuou 36 lançamentos, com três fracassos e uma falha parcial – uma média de dois lançamentos bem sucedidos por ano. Não é muito.

A ideia do lançamento marítimo era e é muito boa. Mas a operação ainda é muito cara e não atingiu o êxito comercial esperado.  Procuram-se alternativas.

A situação mudou muito com a crise econômica e política na Ucrânia, que, sem o cálculo devido, resolveu fazer o jogo da OTAN contra a Rússia.4 Ao romper a convivência normal com a Rússia e tentar vulnerabilizá-la, permitindo, por exemplo, que a OTAN ficasse a uma distância irrisória de Moscou, a Ucrânia deu-se mal e ficou na pior, inclusive e em particular na área espacial.

Hoje, ironicamente, até os países da OTAN enfrentam dificuldades para apoiá-la. Henry Kissinger, do alto de seus 91 anos, propõe como solução à crise na Ucrânia transformá-la em país neutro entre a União Europeia/OTAN e a Rússia, como ocorreu com a Finlândia durante a Guerra Fria, mantendo relações com a Europa e os EUA, mas sem hostilizar Moscou.5

A Rússia não demorou a sentir que devia acelerar a recuperação de sua indústria militar e espacial, tornando-a independente o mais cedo possível. Moscou foi mais realista do que Kiev.

O êxito do Angará-A5, lançado por tripulação militar da base militar de Plesetsk é fruto dessa virada. Ele pesa 773 toneladas e carrega até 25 toneladas, sendo capaz de lançar satélites de duas toneladas à órbita geoestacionária, a 36 mil km da Terra no plano da linha do Equador. Equipado com o motor RD-191, movido a combustível baseado em querosene e oxigênio, é considerado um dos propulsores mais generosos para o meio ambiente.

O Angará-A5 tem chance de substituir o Zenit-3SL no consórcio Sea Launch, onde a Rússia parece estar assumindo papel preponderante.

O Angará-A7, o maior foguete da família, pesará 1.133 toneladas e lançará cargas de 35 toneladas a baixas órbitas (193-220 km) e de 7,6 toneladas à órbita geoestacionária.

O Angará 1.2PP, sua versão mais leve, foi testado com sucesso em julho de 2014 (a primeira tentativa, em junho, teve de ser sustada segundos antes do lançamento).

A série Angará – obra do Centro de Pesquisa e Produção Espacial da empresa estatal Khrunichev, sediado em Moscou – reunirá todos os tipos de lançadores previstos para os futuros projetos da Rússia. O trabalho de quase duas décadas vai custar, ao todo, cerca de US$ 3 bilhões.

Atualmente, o Centro da Khrunichev pode fabricar dez Angará-5 por ano e aumentar essa produção se houver demanda, garante seu primeiro vice-diretor, Aleksander Medvedev. O programa deve estar pronto até 2020.

Os novos foguetes substituirão o Proton e o Soyuz, projetados e construídos por Serguey Korolev (1907-1966)6, o pai do programa espacial soviético, bem como o Zenit, Dnepr e Cyclone, fabricados na Ucrânia e usados muitas vezes no programa espacial russo. Aliás, o Cyclone-4 estava destinado a realizar lançamentos comerciais do Centro de Alcântara, no Maranhão, Brasil, sob o comando da binacional Alcântara Cyclon Space (ACS) – hoje em sérias dificuldades.

Cabe lembrar que a agência espacial russa, ROSCOSMOS, anunciou em novembro de 2014, que planeja construir nova estação orbital a partir de 2017, após cumprir suas obrigações com a Estação Espacial Internacional (ISS). A URSS e a Rússia acumularam ampla experiência em estações espaciais. A URSS criou e lançou as sete estações Saliut, entre 1971 e 1991. Depois veio a Mir (Paz ou Mundo, em russo), a primeira estação espacial modular, que operou entre 1986 e 2001, construída e lançada pela URSS e herdada pela Rússia. Por essas estações passaram dezenas de astronautas (ou cosmonautas, como se diz em russo) de inúmeros países, e ambos os programas estudaram a fundo a capacidade de sobrevivência da espécie humana no espaço. A Mir ainda detém o recorde de mais longo voo espacial humano único: Valery Poliakov viveu ali, sozinho, 437 dias e 18 horas, entre 1994 e 1995.

Novos e poderosos foguetes, nova estação espacial, além de outros planos. Se tudo der certo, a Rússia estará reconstruindo uma indústria espacial independente e autossuficiente – agora com vantagens competitivas antes inexistentes –, e recuperando seu lugar entre os maiores protagonistas da Era Espacial.

Note-se que tais iniciativas arrojadas, em contexto geopolítico adverso, transcorrem num momento de crise econômica na Rússia, com o preço em queda do petróleo, produto central das exportações russas.

Será que aqui também o mercado acabará por determinar a política, as usual?

Quem viver, verá.

Referências

1) Judt, Tony, O mal ronda o mundo – Um tratado sobrre as insatisfações do presente (Ill Fares the Land), Objetiva 2011, p. 145.
2) Angara-A5 Launch Opens New Page in Russia's Space Exploration, Agência Sputnik, Moscou, 24 de dezembro de 2014.
3) R-7 Semyorka, primeiro míssil balístico intercontinental do mundo, mas nunca usado como tal, realizou 28 lançamentos de 1957 a 1961. Seu derivado  R-7A, foi utilizado entre 1959 a 1968. A OTAN (Organização do Atlântico Norte) o conhecia como SS-6 Sapwood e a URSS, como 8K71. Versão modificada do R-7 Semyorka, de dois estágios, 19 metros de altura e 137 toneladas (10,835 toneladas sem combustível) pôs em órbita o Sputnik-1, em 4 de outubro de 1957.
4) Mearsheimer, John J, Why the Ukraine Crisis Is the West’s Fault – The Liberal Delusions That Provoked Putin, Foreign Affairs, September/October 2014. pp. 77-89. O autor é professor de Ciências Políticas da Universidade de Chicago.
5) Kissinger, Henry, To settle the Ukraine crisis, start at the end, The Washington Post, 5 de maio de 2014.
6) Harford, James, Korolev, USA: John Wiley & Sobs, Inc., 199

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4 comentários:

Unknown disse...

Projetado,constrido e lançado de dentro das fronteiras russas,o sistema Angara deu à ela a independência no acesso ao espaço.O mítico soyuz o primeiro ICBM,lançador do primeiro satélite,do primeiro homem.de todos as naves tripuladas soviéticas e russas:lançado do Kasaquistão,do norte russo,da Guiana
Francesa:será lançado também do novo cosmódrmo do desste russo a partir de 201: terá vida muito muito longa ao que tudo indica.

Unknown disse...

O sistema Angara deu à Russia o acesso independente ao espaço e,nisto, sastisfará suas necessidades econômicas,militares e científicas.Porém o lendário Soyuz, agora também com uma versão leve,ganhará sus 4ª rampa de lançamento no leste russo e,por sua fiabilidade e baixo custo,segurá sendo utilizado ainda por longo tempo.

Unknown disse...

O sistema Angara deu à Russia o acesso independente ao espaço e,nisto, sastisfará suas necessidades econômicas,militares e científicas.Porém o lendário Soyuz, agora também com uma versão leve,ganhará sus 4ª rampa de lançamento no leste russo e,por sua fiabilidade e baixo custo,segurá sendo utilizado ainda por longo tempo.

Roberto Carlos disse...

Nos últimos anos, a indústria espacial russa não está apresentando o melhor dos tempos. Isto pode ser visto por lançamentos de emergência repetidos dos diversos satélites. Por exemplo, em dezembro de 2010, como resultado de uma falha no lançamento, ao mesmo tempo três satélites GLONASS caíram no Oceano Pacífico.
Em fevereiro de 2011, a Rússia não conseguiu levar à órbita o satélite geodésico militar Geo-IK-2. No mesmo ano, em agosto, foi realizado o lançamento mal sucedido do satélite Express AM4. Em seguida, o cargueiro russo Progress M-12M logo depois de ser lançado da base de Baikonur (Cazaquistão) caiu no sul da Sibéria.
Em novembro de 2011, a Agência Espacial Federal Russa (Roscosmos) não conseguiu lançar a Marte a estação interplanetária automática Phobos-Grunt, e em dezembro de 2011 foi perdido o satélite de comunicações Meridian 5.
Em agosto de 2012 aconteceu um novo fracasso – desta vez, não foi possível lançar os satélites Express MD2 e Telkom 3. Em julho de 2013, o veículo lançador Proton-M, que transportava três satélites para o sistema de navegação russo GLONASS, explodiu logo após seu lançamento.
O lançamento do satélite Yamal-402 em dezembro de 2012, ao custo de 16 bilhões de rublos, quase tornou-se num dos maiores fracassos espaciais da Rússia dos últimos anos. O veículo lançador Proton com o bloco acelerador Briz-M colocou o satélite mencionado em órbita errada. Eventualmente, o Yamal-402 integrou sua órbita programada com seus próprios motores, mas o gasto de combustível durante estas manobras reduziu a vida do satélite de 19 a 12 anos.